Expectativas e perspectiva do passado

Tal como todos nós sabemos, a vida é feita de bons e maus momentos, de momentos perfeitamente normais e de momentos um pouco mais estranhos. Provavelmente, toda a gente já amou, pelo menos uma vez, já teve que perdoar alguém e esquecer, e as pessoas com mais sorte até podem voltar a amar.
Já amei, já estive perdidamente apaixonada por alguém, que pelos vistos não me soube dar valor. Já perdoei inclusive, mas não sei se algum dia vou ser capaz de esquecer. Porque não te bastou a dor que o nosso amor deixou, não te contentaste enquanto não me disseste coisas que saberias que me iam pôr em baixo, a mim e à minha auto-estima! Se soubesses o quanto te enganaste querido...
Agora volto a sentir todas estas sensações outra vez. Desta vez experimentadas com alguém muito parecido comigo, talvez até demais.Começo a pensar no que poderá acontecer no futuro com esta pessoa. Com esta rapariga que foi a mulher mais linda que eu já vi neste mundo, pelo menos ao vivo! É especial... Muito. Eu sei que vai ser complicado, principalmente de assumirmos, mas nem sempre precisamos de falar para percebemos o que a outra pessoa nos transmite.
Minha cara, mesmo que nunca queiras admitir, nunca te esqueças que sentiste, sentiste tanto ou melhor que eu. Quer queiramos quer não, foi especial, devemos confessar. Mais fantástico é ter sido uma coisa mútua, aquele agarrar de mãos no cinema, juro-te que se não estivéssemos rodeadas de pessoas minhas conhecidas, te tinha beijado, logo ali. O teu olhar pedia, os teus gestos pediam, o teu corpo chamava por mim. Espero que entendas o quanto me estou a odiar agora...
E que percebas que quando uso o verbo odiar contigo, nunca é realmente verdade. Significa sempre precisamente o contrário. Vamos agora aguardar, um pouco de cada vez. Só para que possamos ver aonde isto nos leva. Quero ter a certeza daquilo que sinto, quando o sinto e por quem o sinto!

Castidade?

Não será a castidade uma questão de encontrar o amor verdadeiro?
Porquê entregarmos a qualquer um o que podermos entregar a alguém que realmente signifique alguma coisa para nós e que nos faça ver o quanto somos importantes?
Não é todos os dias que perdemos a virgindade e como tal, não a podemos entregar a qualquer um. Há que esperar pelo momento e pela pessoa certa.
Muita gente perante o calor da paixão, entrega-se a qualquer um. Mas não era assim que deveria ser, devíamos conhecer bem a pessoa, amá-la e não apenas desejá-la!
Talvez seja por isso que muitos de nós, ou muitas de nós, porque são principalmente raparigas, fazemos votos de castidade na maior das loucuras, sempre esperando que o príncipe encantado apareça para quebrar com a nossa promessa de virgindade.
Como os príncipes encantados geralmente não existem, muitas de nós resolvem ficar virgens até ao casamento quando terão um homem seguro por um papel assinado, outras resolvem ir para freiras e as mais desesperadas fazem-no com qualquer um, afirmando que o sexo é uma coisa banal.
Já eu, prefiro ficar como estou. Não me quero arrepender mais tarde das decisões que tomei hoje.

Deixa que eu me encoste a ti...

Estava na aula a morrer de dores nos rins, quase a cair para o lado de tanto sonho que tinha e só pensava numa coisa. Em ti, minha linda. Pensava em como irias estar à minha espera algures no meu caminho para casa.
Como te tornaste especial em tão pouco tempo, já me viste de tantas maneiras mesmo... Aquela ia ser só mais uma vez, adoro a maneira como me pedes para ter calma ou quando me agarras para me defender do que quer que seja. Não és uma amiga comum, é isso que o meu corpo me diz quando as tuas mãos tocam em qualquer parte dele que seja.
És tão igual a mim, às vezes fico confusa porque a maior parte das vezes me lês os pensamentos. Ao mesmo tempo, és tão diferente de tudo o resto. Não existe ninguém como tu mesmo. Tens um estilo e personalidade únicos e acredita que isso faz de ti um ser mesmo muito especial.
Não há um dia em que eu não pense em ti, não há um só dia em que eu não anseie por sair da escola para estar contigo. Invades-me os pensamentos e acho que agora o meu coração. Só peço que aconteça o que acontecer, daqui para a frente, vamos sempre manter a nossa amizade como pelo menos base de tudo o que poderá vir a seguir.
Nunca na minha vida pensei ser tão lésbica ao ponto de pensar assim sobre alguém. Mas a verdade é que não és só uma amiga, não és uma melhor amiga, nem tão pouco uma irmã. És uma espécie de amor platónico, que eu sei que nunca terei por completo. Mas essa é a verdade querida.
Não te peço assim muito, só peço que deixes que eu me encoste a ti. E agarra-me, agarra-me por favor, como se nunca mais me pudesses voltar a agarrar. Aperta-me bem apertadinha e nunca me deixes ir embora. És tudo aquilo que eu preciso, V.

Aposta no Pretérito

Desejei demais aquilo que sabia não poder voltar a ter. Quis acreditar que tudo podia voltar a ser como antes, quis acreditar que podia voltar a ser feliz com a mesma pessoa que tanta felicidade no passado me trouxe.
Como me enganei! A pessoa que eu amo deixou de existir, o seu nome e corpo permanecem os mesmos, porém já não é a mesma pessoa que se passeia no seu interior, a pessoa com a personalidade que tanto me cativou.
Já não existe nele aquele ser humano por quem eu daria a vida, em vez disso tornou-se em alguém que eu sempre odiei, e em alguém que eu sempre temi que ele se transformasse. Mesmo assim, continuei a acreditar que com um esforço de ambos tudo poderia voltar a ser igual. Não podíamos estar assim tão diferentes... E na verdade, acho que até nem estamos.
O único problema é que já não somos apenas nós nesta relação, os seus amigos também estão envolvidos, e eu sei que eles nunca gostaram nem um pouco de mim. Nunca tinham influenciado o amor da minha vida, mas desta vez acho que conseguiram. Fizeram-no ver-me com outros olhos, ver-me como alguém que eu não era, que eu não sou.
Quando este rapaz acordar, já vai ser tarde demais e eu não estarei aqui para ele como sempre estive. Depois o arrependimento e a culpa chegarão e tenho a certeza que mais uma vez vou ser louca o suficiente para voltar, voltar a sofrer por este amor. Até lá, vou continuar o meu caminho tentando descobrir quem sou, quem irei ser. Mas só levo comigo as pessoas que estiverem dispostas a tal coisa, não quero que ninguém se arrependa a meio da viagem.
A pessoa por quem eu me apaixonei à primeira vista morreu e vou deixar o meu amor por esse alguém morrer também. Não vai ser complicado, apenas tenho de começar a dizer o verbo amar no passado.

Passado ou futuro?

Será que vale a pena trocar um futuro imprevisível por um passado maravilhoso? Talvez sim, talvez não.
A verdade é que nunca saberemos o futuro. Absolutamente ninguém pode prevê-lo, apesar de haver imensas bruxas e ciganas espalhadas por este país fora. O destino é feito à medida que tomamos as nossas próprias decisões. Que escolhas fazer? Que decisões tomar? A única coisa que podemos fazer é seguir os nossos instintos e ouvir o som do nosso coração.
O que acontecerá quando nem o som do nosso coração conseguimos escutar? Ficamos sem saber o que fazer ou que caminho seguir.
A única coisa a fazer é apostar. Apostar naquilo com que queremos ficar, segundo o nosso coração. Apostar na nossa felicidade em primeiro lugar, mas é claro que também é preciso pensar na felicidade de quem nos rodeia, mas só de quem realmente importa! Ou seja, os amigos verdadeiros...
Apesar do passado por vezes me parecer completamente ultrapassado, penso que prefiro apostar nele em vez de apostar num futuro que poderá nunca ser mesmo futuro! O passado foi fantástico e eu quero que continue...

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O dois lados do campo - Capítulo I

Passava pouco das quatro da tarde, o sol brilhava e quase não haviam núvens no céu. Estava um fabuloso dia de Primavera, lá fora as borboletas esvoaçavam, as andorinhas voltavam aos seus ninhos que tinham abandonado durante o frio e doloroso Inverno para partirem para locais mais quentes, e as abelhas voavam de flor em flor tão rapidamente que parecia que tinham ansiado por aquele momento durante todo o Inverno, tal como Erica.
Não estava a passar nada de jeito na televisão e todos os livros eróticos da sua estante já há muito que haviam sido lidos. Nas alturas de maior desespero e solidão, tinha-os folheados com tanto prazer como quando fazia amor. Agora já há muito que não o fazia.
Um barulho do que parecia ser um gato vadio perseguindo um passarinho vindo do lado de fora, fez com que Erica despertasse e conseguisse tirar os olhos do computador onde começava agora a escrever o seu livro sobre psicologia. Foi até à janela e toda a bonita natureza lá fora fê-la repensar na decisão anteriormente tomada de não sair de casa nessa bela tarde de Maio.
Enfiou o que considerava ser as suas melhores calças de ganga e vestiu um top com um decote um pouco mais atrevido, como se tentasse compensar todos aqueles fins-de-semana de Inverno passados deitada no sofá da sala em frente da televisão a ver a sua série preferida, Brothers & Sisters, fascinava-a a quantidade de relancionamentos e confusões que aquela família conseguia arranjar. Depois, calçou os seus melhores sapatos, colocou os seus bens numa mala a combinar com o calçado e saíu. Quase que fechava a porta de casa, quando se lembrou do facto de que as chaves ainda se encontravam no interior da mesma. Correu para as ir buscar e finalmente, conseguiu sair da sua alegre vivenda e entrar dentro do seu moderno Mini vermelho.
Não sabia para onde ir, mas como que instintivamente, deu por si a dirigir-se à baixa da cidade. Há tanto tempo que não ia até lá. Aquele era um sítio bastante estranho onde havia uma enorme mistura de pessoas: jovens revoltados, idosos fartos de ficarem em casa e mulheres gastadoras com grandes impulsos consumistas. Havia ainda um quarto grupo que era o dos turistas, porém ela não se inseria em nenhum. Tinha um pouco de todos. Era tão revoltada como os primeiros, estava tão farta de ficar em casa sem fazer nenhum como os idosos, seguia a moda à risca tal como as terceiras e ainda tinham um pouco de turista, porque naquela cidade tudo lhe parecia estranho e desconhecido.
Estacionou o carro num lugar mesmo à frente da sua pastelaria preferida. Decidiu ir dar uma volta pelas lojas da baixa e voltar mais tarde para comer qualquer coisa.
Foi de encontro à sua loja preferida, os saltos dos seus sapatos faziam barulho ao bater nas pedras da calçada e isso atraía a atenção das pessoas que passavam, principalmente dos jovens e homens. Erica não era nenhum espéctaculo de mulher, muito pelo contrário, encontrava-se ainda muito longe de se tornar uma senhora, pois conservava ainda o corpo de uma adolescente. Orgulhava-se da bela barriga que tinha e dos seus longos cabelos castanhos que esvoaçavam com a brisa de vento, mas nada mais que isso.
Os homens continuavam a olhar para ela, não pelo seu corpo ou cara, mas pela confiança que ela aparentava ao andar. Apenas aparentava, porque na realidade, tudo não passava de uma ilusão. Erica tinha plena consciência disso, mas mesmo assim, continuava a ignorar todos aqueles piropos vindos daqueles seres humanos - a maior parte deles casados - completamente nojentos. Enquanto observava ao pormenor algumas das roupas que tencionava comprar naquele dia, os seus olhos foram de encontro a uma bonita jovem acompanhada pelo namorado. Já na caixa, começou a recordar-se do período da sua adolescência. Também ela custumava passear pela baixa com o seu namorado, às escondidas dos seus pais, pois só assim conseguia sair. Eram tão diferentes um do outro, mas isso não os impediu de estarem juntos durante cerca de um ano e meio. Estava tão apaixonada naquela altura que chegou a julgar que nada os iria separar. Errou. Isso acabou por acontecer no final das aulas, quase no início do Verão. Não aconteceu por desejo dela. Um dia simplesmente chegaram à conclusão (mais ele que ela) que já não conseguiam continuar juntos. Tinha acontecido há apenas cinco anos, mas a ela parecia-lhe uma eternidade. Não acreditava que voltaria a apaixonar-se por algum homem como se tinham apaixonado por aquele rapaz há meia década atrás. Gonçalo... sim, era esse o seu nome. Lembrava-se perfeitamente do tempo que tinham demorado a esquecer tudo aquilo que sentia por ele, até se tinha dado ao trabalho de o apontar num calendário, até um dia a ver com outra e isso foi remédio santo.
- Oitenta e três...
Parou de pensar naquelas coisas. Estava alguém ao lado dela que sabia exactamente o número de dias que ela demorara a esquecer aquele rapaz chamado Gonçalo. Seria ele?
- Oitenta e três euros e cinquenta e oito cêntimos. – repetiu a empregada.
- Ah! – suspirou Erica de alívio. Tirou o cartão de crédito de dentro da sua carteira e entregou-o à empregada. Estava tão envergonhada que nem sabia bem o que dizer.
Olhou para o que tinha comprado. Um par de calças e duas camisolas. Tudo oitenta e três euros. Como era possível ter gasto tanto dinheiro em apenas três peças de roupa?! Lembrou-se de que estava na melhor loja da cidade e que os preços não importavam naquela local. Então, porque não gastar dinheiro naqulo que queria, já que não tinha mais sítio nenhum onde o gastar. O seu trabalho como psicóloga dava-lhe dinheiro suficiente para se alimentar, para a gasolina necessária para se deslocar de casa ao trabalho e do trabalho até casa, para as prestações do empréstimo da compra da casa que agora dividia com a sua melhor amiga, e ainda para queles gastos mensais adicionais em roupas e acessórios. Tinha o seu próprio consultório e adorava a profissão que exercia, embora às vezes se sentisse um pouco desgastada emocionalmente no final do dia. O verdadeiro motivo para ter decidido ser psicóloga só ela o sabia e não tencionava partilhá-lo com ninguém. Não queria dar parte fraca.
- Obrigada. – disse a bonita empregada de balcão ao devolver-lhe o cartão.
- Obrigada, eu. Tenha um resto de boa tarde. – disse Erica educadamente e piscando-lhe o olho. Depois pegou no saco com a roupa e saíu da loja.
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